Encontro discute enfrentamento
à violência contra crianças e
adolescentes
* Ednubia Ghisi e Hendryo André
Discutir questões éticas e as atuações
dos profissionais envolvidos na área da infância.
Esse foi o tema do Seminário Municipal de
Enfrentamento à Violência Sexual Contra
Crianças e Adolescentes Ética
e Sigilo Profissional, que aconteceu nesta terça-feira,
no Salão de Atos do Parque Barigüi.
Para Rosana Faquin, desembargadora do Tribunal de
Justiça, apenas o Poder Judiciário
não é capaz de tratar os problemas
referentes à exploração sexual
de meninos e meninas. Por isso, o mais importante,
segundo ela, é o fortalecimento da Rede de
Proteção à Criança e
ao Adolescente em Situação de Risco
para a Violência, que conta hoje com 103 entidades
em Curitiba e Região Metropolitana ligadas
à Fundação da Ação
Social (FAS). Se a criança sofre com
a falta de amor dentro do núcleo familiar,
ela provavelmente vai ter a mesma atitude no futuro,
só que em meio à sociedade,
acredita.
As pessoas ainda acreditam que somente o estupro,
uma forma de violência mais brutal, é
violência sexual. As outras formas não
são entendidas como um problema grave,
explica a conselheira tutelar da Regional Pinheirinho
Fátima Barbosa. Ainda segundo ela, os profissionais
que atuam na Rede devem ter espaços de formação
constante, é necessário também
sensibilizar a comunidade em geral.
Muito além da punição
De acordo com a 1.º Vara da Infância
de Curitiba, desde o início do ano foram
condenadas na Capital 34 pessoas acusadas de pedofilia,
em penas que somam mais de 400 anos de prisão
média de uma condenação
a cada quatro dias. Por outro lado, durante o seminário,
ressaltou-se que é importante trabalhar políticas
para toda a família, (ver Box) Não
é só punir o infrator. É preciso
recuperá-lo. O agressor precisa ter consciência
de que cometeu um crime, mas é necessário
trabalhar a prevenção do ato,
explica Fanqui.
Já Lilian de Matos Guedes, representante
da 1.º Vara da Infância ressalta uma
peculiaridade no caso de abuso sexual contra meninos
e meninas: O abusador da criança é
inteligente. Ele não comete o ato por impulso,
pois pretende praticar o abuso por muito tempo.
Somos incompletos
A frase do poeta Manoel Barros vai de encontro à
presunção humana pela perfeição.
Reinventar a prática diária de enfrentamento
às violações dos direitos da
infância e admitir a necessidade de modificar
a construção cultural da sociedade
ocidental patriarcal, mercadológica
e individualista é um dos caminhos,
de acordo com o conselheiro do Conselho Nacional
dos Direitos da Criança e do Adolescente
(Conanda) Renato Roseno.
Ele defendeu a necessidade da derrubada do paradigma
de que as crianças não têm sexo.
A infância, segundo Roseno, foi
composta de maneira muito desigual durante o desenvolvimento
das civilizações e nunca foi considerada
categoria social, e só a partir da
criação do Estatuto da Criança
e do Adolescente (ECA), em 1990, é que a
infância se tornou um grupo social com direitos
garantidos na legislação.
Antes disso, porém, o conselheiro do Conanda
exemplificou a situação de exclusão
de meninos e meninas como categoria social: Durante
o Império Romano, as piores formas de trabalho
eram destinadas as crianças. O mesmo aconteceu
com os filhos de escravos no Brasil que eram tratados
como animais domésticos.
O tardio reconhecimento dos direitos infantis é
uma conseqüência das conquistas de outra
luta, o direito à recusa, expresso pelos
movimentos feministas no início da segunda
metade do século XX. Isso nos ensina
que há direitos sobre a sexualidade. As mulheres
fomentaram a reflexão sobre a autonomia,
a liberdade e a responsabilidade sobre seus próprios
corpos.
A ética está na responsabilidade
social pelo mundo
Escutava algumas vezes meu vizinho bater na
filha. Mas nunca tive coragem de denunciá-lo,
pois não quis estragar a amizade entre as
famílias. O relato feito Roseno descrevia
o desabafo de uma profissional da área da
infância. Esse exemplo negativo trouxe ao
debate o compromisso verdadeiro dos atores que participaram
do seminário. Eles foram alertados para o
cumprimento de seus verdadeiros papéis na
atuação da defesa dos direitos da
infância e adolescência. Mais que executar
uma tarefa, os conselheiros tutelares, psicólogos
e assistentes sociais foram chamados a refletir
sobre suas responsabilidades como possíveis
transformadores sociais.
Apesar do fenômeno da globalização,
Renato Roseno afirma que a visão da realidade
não é totalizante, e que a interpretação
dos acontecimentos é fragmentada. Por isso,
as pessoas não se sentem responsáveis
pelos problemas que não atingem diretamente
sua vida particular.
Se a ética está na responsabilidade
social, outros setores merecem críticas,
dentre eles, a publicidade e o jornalismo, grandes
ferramentas do capitalismo neoliberal, que instiga
o individualismo e a reificação (a
idéia de tornar as relações
humanas mercadológicas): O processo
de erotização da publicidade e da
comunicação em massa, feitos pelo
incentivo aos padrões de beleza e de consumo,
intensificam o individualismo, e mesmo assim, ainda
não fazem da discussão sobre violação
dos direitos sexuais humanos.