O desafio de formar
cidadãos que não são de papel
Educadores de Curitiba,
Região Metropolitana e litoral discutem o papel
da escola no enfrentamento da violência sexual
infanto-juvenil
* Carolina Belo e Felipe Ferreira
O Fórum "Proteção
e prevenção: O papel da escola na
construção de práticas no enfrentamento
da violência sexual infanto-juvenil"
reuniu em Paranaguá-PR, no dia 18/04, educadores
e jovens de Curitiba, Região Metropolitana
e do litoral do Paraná. Os participantes
discutiram qual o papel da escola no enfrentamento
à violência contra crianças
e adolescentes e também propuseram soluções
para o problema.
Ao som do rap Todo mundo tem
o direito de sonhar, escrito pelos jovens
Du Rap e Rita Dorine, os participantes
do projeto Navegando nos Direitos fizeram o lançamento
de sua primeira produção, o Jornal
Nossa Kra. No jornal, eles escrevem sobre suas
realidades, os problemas que enfrentam e principalmente
sobre seus sonhos. É preciso chamar
mais a atenção do jovem, fazendo mais
fóruns, entrevistando-os e mostrando a eles
que também têm direitos e que é
preciso reivindicá-los, diz a jovem
Suelen Alves, em uma de suas matérias.
Na mesa de debate mediada por Márcia
Caldas, presidente da Comissão da Criança
da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PR), diversos
atores sociais falaram sobre a importância
da rede de proteção à criança
e ao adolescente e a atuação da escola.
Não é fácil a rede funcionar.
Ela ainda é pessoal, não institucional,
mas funciona, afirmou Neuza Mari Machado,
da Secretaria da Criança, Promoção
e Assistência Social de de Paranaguá,
sobre as articulações em rede no município.
Neuza, que foi coordenadora do Programa Sentinela
no município, destacou a importância
de denunciar casos de violência contra crianças
e adolescentes. Márcia Caldas reforçou
o alerta de Neuza, lembrando aos educadores que
são obrigados por lei a denunciarem os casos
de violência contra crianças. O artigo
56 do Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) determina que os dirigentes de estabelecimentos
de Ensino Fundamental devem comunicar ao Conselho
Tutelar os casos de maus-tratos envolvendo seus
alunos.
Ainda em relação ao
enfrentamento da violência sexual infanto-juvenil,
a atual coordenadora do Programa Sentinela de Paranaguá,
Jussara Fagundes das Neves, apresentou o trabalho
desenvolvido pelo programa e a importância
da articulação com os demais atores
sociais. De acordo com ela, desde 2001 foram atendidos
656 casos de violência sexual contra crianças
e adolescentes, com acompanhamentos e visitas sociais.
Destes, 130 ainda estão em atendimento e
21% das vítimas são do sexo masculino
e 79% feminino.
O papel da escola
As discussões sobre o papel
da escola na formação de cidadãos
e no combate à violência contra crianças
e adolescentes começou com a fala da representante
do Núcleo Regional de Educação
Selma Meira e os depoimentos dos educadores Beth
e Valdemir Roberto. Para Selma, a participação
dos jovens nos processos é fundamental para
as transformações sociais e possibilita
a formação de cidadãos autônomos,
críticos e que entendam seu contexto social
e econômico. Ela também cita o diálogo
e a interação com a comunidade como
fatores para a formação de cidadãos.
A Associação Cidade
Escola Aprendiz, de São Paulo, apresentou
sua experiência de envolvimento entre a escola
e a comunidade. A organização desenvolve
seus projetos a partir da proposta bairro-escola,
em que a escola se localiza em um espaço
múltiplo, de ações e integrações
de políticas públicas e faz parte
de uma rede de atenção integral a
crianças e adolescentes. A gente acredita
que a escola é parte da comunidade e precisa
se conectar com ela. As parcerias promovem a conexão
com a comunidade, que se apropria dos seus papéis
e consequentemente, promove maior participação
no enfrentamento dos problemas comunitários,
conta Fernanda Salles, educadora do núcleo
de comunicação da organização.
A proposta do Cidade Escola Aprendiz é a
solução dos problemas a partir das
iniciativas individuais. Acreditamos que a
solução dos problemas está
territorializada, está em um lugar que as
pessoas cuidem e não fiquem só nas
suas casas, complementa.
A partir das discussões dos
palestrantes, os educadores e jovens participantes
formularam práticas para o enfrentamento
da violência sexual contra crianças
e adolescentes, para serem realizadas nas comunidades
escolares. Entre eles estava a jovem Tassia Paula
Siqueira, de 16 anos, que estuda no Colégio
Estadual Alberto Gomes Veiga, em Paranaguá.
Tassia participa do Projeto Viva, que trabalha
a temática da sexualidade com jovens. A estudante
acredita que seu papel como jovem mobilizadora contribui
para a o enfrentamento à violência.
O meu papel é representar e apresentar
o que aprendi, denunciar um problema, diz.
As propostas serão encaminhadas para a rede
de enfrentamento à violência de Paranaguá-PR
e também levadas aos municípios representados
pelos educadores.
*Carolina Belo e Felipe Ferreira
são integrantes da equipe da Ciranda